O advento da internet descentralizada

Phelipe Folgierini
6 min readMay 17, 2021

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A internet como conhecemos hoje é dominada por gigantes da tecnologia, provedores de conexão e outras grandes empresas. Eles se tornaram os “guardiões” que permitiram que a internet se tornasse uma ferramenta de vigilância global e um depósito virtualmente infinito de informações — inclusive pessoais.

Mas quem guarda os guardiões?

Agora que o blockchain é uma tecnologia dominante, o interesse começou a aumentar. Essa popularidade significa que a descentralização pode se tornar algo viável muito em breve. Mas será que é possível uma internet genuinamente descentralizada? E o que significa descentralização?

Como a Internet se tornou centralizada

A internet é formada por um sem número de computadores conectados de forma horizontalizada num sistema sem proprietários. Nenhuma empresa é dona da internet, o que explica seu crescimento explosivo nas últimas décadas. Sem nenhum mecanismo proprietário por trás disso, qualquer pessoa pode ficar online e criar conteúdo.

No entanto, de acordo com o Mozilla Internet Health Report de 2018, o Google é responsável por 90% das pesquisas globais em todos os dispositivos. Os smartphones Android e o navegador Chrome também estão entre os mais populares do mundo.

O domínio global do Google significa, para muitas pessoas, que o Google é a internet. Elas interagem com os serviços do Google, por meio de dispositivos do Google, acessando os servidores do Google.

Embora o Google seja dominante em algumas áreas, outras são controladas por empresas igualmente poderosas. A Amazon, através de seu serviço AWS, é responsável por 34% de todo o armazenamento e hospedagem em nuvem. O Facebook é a rede social dominante com mais de 4 bilhões de usuários no Facebook, Instagram e WhatsApp.

Esse domínio massivo por poucas e grandes empresas de tecnologia abre margem para os mais diversos abusos, desde promoção de resultados de busca não necessariamente baseados em relevância, até sites sendo retirados do ar e usuários banidos de redes sociais sem muita explicação ou motivos claros e plausíveis.

O blockchain nos oferece uma maneira de voltar aos dias em que a internet e os dados retornem ao controle dos usuários. O crescimento dos DApps descentralized apps ou aplicativos descentralizados — , o surgimento do DeFi e outras iniciativas nos mostrou que existe uma inclinação ao retorno da descentralização.

Ativistas e desenvolvedores começaram a propor formas ousadas e inovadoras de retomar o controle coletivo da internet, no que ficou conhecido como movimento Redecentralize.

O papel do Blockchain na descentralização

O sistema de nomes de domínio (DNS) é como a lista telefônica da internet. É a camada responsável por traduzir endereços IP numéricos em URLs amigáveis para humanos. Talvez seja uma das principais tecnologias que viabiliza o acesso de pessoas comuns ao mundo conectado. Mas é um processo centralizado vulnerável à vigilância e censura.

O Google opera um dos maiores servidores DNS da atualidade. Os ISPs (provedores de conexão) também mantêm muitos servidores DNS. Sempre que você insere uma URL de algum site no seu navegador, essa URL é enviada para um servidor DNS para consulta e “tradução” do endereço, o que acaba por ter levar ao site desejado. Seu ISP, ou o Google, armazena um registro da sua solicitação, incluindo seu endereço IP e o site que você está visitando.

Se o operador do servidor DNS decidir que você não deve visitar um site, ele pode bloquear o seu acesso sem cerimônia. Governos e empresas podem explorar esse sistema centralizado (operado por apenas um punhado de empresas) para censura. E muitos o fazem. Existem diversos sites e serviços que não podem ser acessados em diversos países por determinação legal.

Tentativas de descentralização

Além das tecnologias que formam a base para o funcionamento da internet — as quais as pessoas normais não querem nem precisam saber do funcionamento — existem incontáveis criações que servem às pessoas no dia-a-dia, desde o envio de um simples e-mail e acesso a sites, até plataformas de vídeo como o YouTube, armazenamento de arquivos como Google Docs ou OneDrive, redes sociais como Facebook e Twitter, apps de mensagem como WhatsApp ou Telegram e outras tantas soluções que já são comuns.

Como substituir todos esses serviços por opções descentralizadas?

Existem diversas alternativas baseadas em blockchain que aos poucos vão ganhando espaço no nosso mundo, para citar algumas:

  • O Namecoin é uma alternativa aos serviços de DNS tradicionais. Com ele o primeiro ponto de contato da internet com seres humanos se torna livre de censura.
  • A ZeroNet é uma forma 100% descentralizada para criação e armazenamento de sites que utiliza a tecnologia blockchain aliada a um sistema P2P semelhante ao torrent para armazenar e distribuir conteúdo.
  • O Steemit é uma rede social muito semelhante ao Reddit que remunera os usuários pela criação, curadoria e interação de conteúdos publicados na plataforma.
  • O Storj é uma plataforma de armazenamento de arquivos que criptografa, fragmenta e espalha os arquivos por diversos nós espalhados pelo globo de forma que ninguém sem autorização consiga ter acesso ao conteúdo. Serviços de cloud storage semelhantes ao Google Drive ou Dropbox podem ser criados sobre essa plataforma.
  • O Odysee é uma plataforma de vídeos construída sobre a tecnologia do LBRY, que permite a criação e distribuição de conteúdo digital de forma descentralizada e distribuída.

No entanto todos esses serviços ainda operam em cima da internet tradicional. Um paradigma que precisa ser superado caso queiramos uma internet realmente descentralizada no futuro.

Por exemplo, o governo chinês bloqueou o acesso ao site ZeroNet e ao rastreador BitTorrent no país, censurando o acesso à essa tecnologia para quase 20% da população mundial. Esse tipo de controle destaca a dificuldade que será preciso superar na transição entre redes centralizadas e descentralizadas.

Quebrando a internet antes de qualquer coisa

Paralelo à criação de serviços descentralizados, é preciso desenvolver soluções que viabilizem a descentralização da tecnologia da internet como um todo, sob pena desses serviços se tornarem no futuro tentativas idealistas frustradas.

Em 2015 Kim Dotcom anunciou que iria criar a MegaNet, “a internet do futuro, livre de censura”, utilizando a tecnologia blockchain. No entanto no final de 2017, Kim comentou que ainda levaria ao menos meia década para a sua criação começar a ser utilizada.

Além disso, existem diversas outras tentativas e promessas de se criar uma arquitetura de internet descentralizada e distribuída, mas nenhuma tem alcançado grande relevância até agora.

A que percebo ser a mais notável atualmente, que vem demonstrando com cada vez mais detalhes técnicos que pode ser uma forte candidata a substituir a tradicional rede mundial é a Dfinity.

Se utilizando de conceitos um pouco abstratos como Internet Computer, Node Machines, “software canisters” e outros, eles prometem substituir a infraestrutura de internet como conhecemos, viabilizando uma quase utópica anti-orwelliana realidade onde governos ou grandes empresas não possam controlar as informações.

Internet Computer Protocol — ICP. Um possível substituto para o TCP?
Node Machines, Node Subnets e Host Nodes
Software Canisters

Para entender melhor sobre o funcionamento do Dfinity, sugiro a leitura do report da Messari à respeito da tecnologia.

No fim, existem diversas tentativas e muitas delas extremamente maduras e bem estruturadas que podem viabilizar uma internet descentralizada para o futuro. Vamos acompanhar os desafios que ainda vão surgir.

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